Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Não vou olhar pra ele. Não, eu não vou olhar. Véi como ele ta lindo.


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Eu não sou mais a sua garotinha, pai.
Eu já não sei cantar aquelas cantigas de antigamente. Também não sei mais pilotar aquela bicicletinha rosa que você me deu há uns anos atrás. Ainda não sei fazer um achocolatado tão bom quanto o seu e minhas mãos, aquelas que eram pequeninas e gordas, já não são menores que as suas. Eu me esqueci de muita coisa, pai. Coisa que não era importante e coisas que eu achei que jamais poderia esquecer. Tipo esquecer o nome do meu personagem favorito daquele desenho animado que você assistia comigo, nas tardes de sexta-feira. Sua garotinha cresceu, pai. E das muitas coisas que esqueci enquanto crescia; lembrei de poucas que você me alertava. Quando os meninos me pediam para brincar de médico, eu nunca aceitei. Também nunca aceitei que aquelas garotas grandalhonas da escola, gritassem comigo. Aprendi a gritar mais alto, acho que isso é coisa da mamãe. Também aprendi a ver o mundo da maneira que você vê. Sempre bem humorado, fazendo palhaçada de tudo, mas quando preciso, perdendo o controle e gritando aos quatro ventos. Acho que sou sua xerox, só que eu nasci um órgão meio diferente.
Não me esqueci também de olhar para atravessar a rua pelo menos umas trinta vezes. Eu não olho trinta, se quer duas ou três vezes e não é sempre que espero o farol fechar. Desculpe por isso, não sou tão obediente assim. Também tomei meus cuidados na hora de namorar. O problema é que, muitas vezes protegi minha integridade e deixei meus sentimentos serem corrompidos. Doeu mais do que aquela vez em que eu cortei o dedo brincando com a faca. Doeu, pai. Mais do que às vezes em que eu ralei os joelhos e tive de enfrentar o sabonete no banho. Doeu bem mais do que já tinha doído antes. E disso, você não me avisou. Avisou que gatos não eram animais confiáveis, avisou que estudar era essencial e que para estranhos não se dá informação. Avisou que minha mãe era um perigo na tpm, e jurou que eu também seria assim. Avisou que tomar refrigerante sem comer nada é perigoso e não me deixou esquecer de escovar os dentes. Isso, até hoje. Mas pai, e sobre todas aquelas outras coisas da vida? As decepções, os relacionamentos, o coração quebrado, o medo, a insegurança. Pai, você avisou pra ter fé, e essa que nunca faltou, foi o que me manteve de pé quando as coisas só queriam me derrubar. Acho que você não avisou que a vida não tinha só sabor de toddynho e leite moça, porque se tivesse assim o feito, eu não aprenderia tão bem quanto aprendi sozinha, sem avisos prévios.
Pai, sua menina cresceu. Aprendeu a ler, escrever e jogar baralho. Eu não sou mais a sua garotinha, pai. Agora sou uma mulher.
Gabriela Machado.  (via copodeleite)


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